terça-feira, 3 de maio de 2016

Sapatos novos

"Uma porta fechada. Os pés despidos. Nús.
E tu nos teus melhores sapatos: novos. Perfeitos.
Ainda consegues sentir o cheiro a novo... ainda consegues sentir o cheiro da pele... Senti-lo-ias, ainda que medisses dois metros -entre os pés e o nariz.
Mas como estão os teus pés?
Esses que guardas dentro dos teus sapatos -novos?
Ali, presos, vão-te prender, vão-te contrair e contrariar os movimentos..
Não vais poder dançar -que magoam; não vais poder andar por ruas incertas -que cais.
Vão dizer-te -os sapatos novos- por onde deves ir, por onde podes ir; não te vão deixar calcar terra, que enterra os saltos -altos- e, se forem rasos, não deixam também, porque são novos e a terra suja, estraga o brilho.
E vais andar ali, com os pés a quererem rasgar os sapatos, para saírem... os dedos a atropelarem-se uns aos outros, encavalitados, a mingarem no aperto. Que aperto.
Livra-te deles, antes que sejas todo aperto, até à garganta que ganha nós e te rouba a voz.
Livra-te deles. Novos, perfeitos. Deixa-os a outros pés, perfeitos para eles.
Deixa o pó da terra ganhar-te os pés descalços, deixa cair sobre eles a água da chuva, deixa-os secar ao sol.
Deixa os sapatos à porta: não entres -nem eles, nem na porta-  se não couberes em nenhum deles.
Livra-te deles, antes que te apertem os pés, o peito, o ser.
E essa porta será uma porta fechada: por ti.
E esses pés; os que tu despiste.
Que sejam os teus pés: nús e gastos... de andarem, de dançarem, de viverem.
Pés cheios de histórias a subir-te pelos calcanhares até à garganta, que te desfaz dos nós e te devolve a voz."

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