"Agora nos teus vinte anos, Maria [André querido, por hoje], eu te dedico este livro: Alice no País das Maravilhas.
Este livro é doido, Maria. Escuta: se não descobrires um sentido na loucura, acabarás louca. A realidade, Maria, é louca! Ninguém no mundo pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: "Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?". Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível, nem quando te questionares "Quem sou eu no mundo?".. Não importa a resposta; o importante é encontrares uma. A sozinhez ( e esquece esta palavra feia que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que a Alice sentiu no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!" O importante é que conseguiu sair de lá, abrindo a porta! A porta do poço, Maria!
Somos todos tão tontos, Maria! Quando a Alice comeu o bolo e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo!
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso -nem toda a sabedoria tem de ser grave. Por isso te digo: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: "Gostarias de gatos se fosses eu?"
A vida das pessoas é feita de corridas, Maria. Mas é tontice disputar corridas se não sabemos quem venceu. Se tiveres que ir a algum lugar, Maria, não te preocupes com a vaidade fatigante de seres a primeira a chegar. Se chegares sempre onde quiseres chegar ganhaste, Maria!
E, Maria, nos momentos em que pensares em desistir, em que o teus olhos teimem olhar para o chão, não desesperes como a Alice com o seu pensamento: "Devo estar a diminuir de novo." Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente. Alice diminuiu tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, querida Maria. Ah, mas o contrário também acontece! A alma da gente é uma máquina complicada que produz, durante a vida, uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O truque, Maria, é rir no caso da primeira confusão e enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E, Maria querida, como tomar o pequeno por grande e grande por pequeno é sempre meio cómico nunca, mas nunca devemos perder o bom humor. Todas as pessoas devem ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato, sabes aquele, Maria, que gastamos na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa quando está sozinha, para perdoares a ti mesma, para te rires de ti mesma, Maria; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sentimos o sucesso ou o fracasso... Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, Maria, mais uma palavra de bolso: às vezes, Mariazinha, uma pessoa abandona-se de tal forma ao sofrimento, com tal placência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, Maria. Por isso Alice, depois de ter chorado num lago, pensava: "Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas". Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida, Maria querida; é feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira da nossa dor, Maria da Graça.
A sabedoria de bolso, Maria, vais achá-la sempre no teu coração... é aquela que sem falar, Maria, fala mais alto; aquela que te guia se estiveres atenta, bem atenta, Maria querida! E, Maria, faz-me o favor de olhar para as cores da natureza, para o céu! Tudo o que está à tua volta, Maria, te lembra -caso te esqueças- que o porquê da vida é a beleza! Por isso, querida Maria [meu querido André] faz-te [e faz-me] o favor de ser FELIZ!"
Gosto-te. Muito.
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