terça-feira, 31 de maio de 2016

Saudade

"Saudade não é só lembrar; é carregar despedidas também.
Despedida da vida que se desenrola no presente ou que insiste em se demorar dentro da gente. Saudade da vida que não se concretizou, mas permanece criando raízes na nossa mente.
Despedida da infância dos filhos; da saúde dos pais; do cabelo volumoso; do frio na barriga, coração acelerado. Saudade do amor que pediu casa, do afeto que criou asas.
Saudade do que ocorreu, do que deixou de existir, do que a gente quis e o tempo não consentiu. Saudade ao perceber que tudo se transforma num piscar de olhos e que, isso, nos faz agarrar os instantes com precisão, desejando que os vapores do tempo não arrastem para longe aquilo que não nasceu para ser só saudade."
(Fabíola Simões)

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Amigo(a)

Amigo

Mal nos conhecemos 
Inaugurámos a palavra «amigo». 

«Amigo» é um sorriso 
De boca em boca, 
Um olhar bem limpo, 
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece, 
Um coração pronto a pulsar 
Na nossa mão! 

«Amigo» (recordam-se, vocês aí, 
Escrupulosos detritos?) 
«Amigo» é o contrário de inimigo! 

«Amigo» é o erro corrigido, 
Não o erro perseguido, explorado, 
É a verdade partilhada, praticada. 

«Amigo» é a solidão derrotada! 

«Amigo» é uma grande tarefa, 
Um trabalho sem fim, 
Um espaço útil, um tempo fértil, 
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa! 

Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca' 
(Poema dedicado à minha amiga Joana pelo seu aniversário)

sexta-feira, 27 de maio de 2016

A razão pela qual...

... a maioria das pessoas não atinge os seus objectivos é porque não os define, ou sequer os considera como credíveis ou atingíveis. Os vencedores dizem para onde vão, o que pretendem fazer durante o caminho, e quem partilhará a aventura com eles.

Denis Watley

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Sem objetivos...

... somos como um barco à deriva, sem destino.

Fitzhugh Dodson

terça-feira, 24 de maio de 2016

Portas por abrir

"Nenhuma felicidade é previsível - e se há algo verdadeiramente alegre na felicidade é essa constante imprevisibilidade, essa sensação de porta a abrir sem saber o que está por trás.
A vida vale quase só pelas portas por abrir que não sabemos o que escondem."
(Pedro Chagas Freitas, in Prometo Falhar)

quinta-feira, 19 de maio de 2016

É mellhor esquecer a ideia...


... de buscar a felicidade a todo custo e ir em busca de coisas mais interessantes, como os mares desconhecidos, as pessoas estranhas, os pensamentos provocadores, as experiências arriscadas.

(Paulo Coelho)

quinta-feira, 12 de maio de 2016

O que deve saber aos 20 anos, mas ninguém lhe diz...

 

1.Mantenha o contacto com os amigos verdadeiros

É fácil perder o pé nos próximos tempos, ofuscado com a quantidade de pessoas novas que vão entrar na sua vida e a animação constante que se avizinha. Mas não se esqueça de continuar a falar com os seus melhores amigos de sempre, porque esses você sabe que estarão sempre ao seu lado, já o mesmo não pode dizer (para já) das pessoas que vai conhecer daqui em diante.

2.Apesar de ser inteligente, o seu cérebro ainda está em formação. Escute os seus pais, mais do que eventualmente gostaria

Só aos 23 anos o seu cérebro consegue estabelecer todas as ligações que o tornam realmente 'adulto'. Até lá (e também depois disso...) continue a escutar os conselhos e os alertas dos seus pais. Eles são (na maioria dos casos) mais fiáveis do que as suas ideias.

3.Aproveite o momento

Mais do que em qualquer outra fase da sua vida, esta é a altura em que está mais concentrado no seu futuro. Mas vá com calma. Isso é bom para se agarrar aos estudos e dar o seu máximo, mas não deixe de viver por causa disso. Saber gozar cada momento é uma capacidade que vai perdendo à medida que os anos passam. Aproveite-a agora!

 4.Vai sentir saudades desse seu corpo mais tarde 

Chegará o dia em que terá saudades mesmo dessas partes do seu corpo que hoje odeia. E por mais inacreditável que lhe pareça, até vai achar que, afinal, eram quase perfeitas. Cuide bem do seu corpo. Alimente-se de forma saudável e faça exercício físico.

5.Se alguém for realmente indelicado consigo, o problema está nele, não em si
Palavras duras e injustas são geralmente usadas por pessoas inseguras contra aqueles que consideram mais fortes ou melhores do que elas, como a única forma de os tentar abalar. Não se deixe abater.

6.Aprenda a pedir desculpa

Admita quando errou. Diga 'lamento', seja humilde e não arranje mais desculpas para se justificar.

7.A formação é muito importante

Acredite que se vai orgulhar da sua licenciatura para o resto da vida... e se irá arrepender se não a completar. Não interessa se vai ser médico, engenheiro ou professor, ou seguir uma profissão que nada tem a ver com o seu curso, mas fique com a certeza que será sempre um profissional melhor e uma pessoa mais esclarecida.

8.Deve dizer NÃO sempre que achar necessário

A vida é sua e ninguém o pode obrigar a fazer aquilo que não quer. Mesmo que agora as consequências lhe pareçam pesadas, vai sentir-se muito pior se aceder a fazer algo que considera errado ou inapropriado, apenas porque os outros querem.

9.Tudo o que 'postar' nas redes sociais fica para sempre
Uma fotografia que retrata um momento embaraçoso, um vídeo atrevido ou um comentário irrefletido podem impedi-lo de chegar tão longe como gostaria. Cada vez mais os recrutadores usam as redes sociais para conhecer a verdadeira personalidade dos candidatos.

10.Siga a sua voz interior


Não se deixe manipular pelos outros em relação ao que pretende fazer da sua vida. Se o seu sonho é ser advogado não dê ouvidos ao seu melhor amigo que quer á força levá-lo com ele para Publicidade. Até pode ser uma carreira mais excitante, mas se não é isso que o entusiasma, deixe-o ir.

11.A meditação ajuda-o a alcançar os objetivos
Não deixe que os dias passem uns atrás dos outros, sem parar um pouco para refletir se está a caminhar na direção certa. O curso pode não ser afinal aquilo que imaginara, e não vale a pena esperar pelo final para depois voltar a trás ou transformar-se numa pessoa infeliz. Quanto mais cedo se aperceber e tomar medidas, mais rapidamente muda para o rumo certo. Mas este hábito também lhe será muito útil em outras questões do dia-a-dia - na escolha dos amigos, no tipo de vida que leva, no investimento que está a fazer no estudo, entre outras coisas.

12.Viaje
Esta é a fase ideal para conhecer outras formas de estar na vida. Nem sempre é preciso gastar muito, se souber procurar boas oportunidades. Pode viajar de comboio, autocarro ou em voos low cost e tentar ficar em casa de amigos, ou de amigos de amigos, para poupar na estadia. E porque não aproveitar o convite do seu colega polaco para ir visitar o país dele? Vai precisar de mundo para ser um bom profissional e isso não se consegue na faculdade.

13.Não polua o seu corpo

Não fume, não abuse do álcool, não tome drogas, e reduza a junk food ao máximo. As toxinas afetam não apenas a sua saúde, mas também a sua beleza exterior - arruínam a pele, o cabelo e retiram-lhe o brilho característico da juventude. E estes hábitos influenciam a imagem que as pessoas constroem sobre si. Cuide-se.

14.Dê uma oportunidade aos outros
Escute as pessoas mesmo quando não concorda com elas. Tente perceber o que as leva a defender argumentos diferentes dos seus - por vezes, até há factos que pode desconhecer. Não faça julgamentos precipitados. Tenha uma mente aberta.

15.Seja você próprio

Pare de se comparar com os outros ou de tentar ser uma cópia de alguém. Esse é um comportamento típico da adolescência que é suposto não levar na bagagem para a faculdade. Aprenda a valorizar os seus pontos fortes e tente melhorar os fracos, sem lhes dar demasiada importância.

16. Fale com os professores
Peça ajuda sempre que precisar. Na faculdade os professores são mais distantes, mas não são inacessíveis. Conversar com eles sobre dúvidas ou dificuldades pode até contribuir para que fiquem com mais atenção ao seu desempenho e possam ajudar a abrir-lhe algumas portas quando for preciso.

17.Se quer receber, não se esqueça de dar
Em vez de se queixar que a senhora de idade que lhe aluga o quarto lhe desliga o esquentador quando se demora no duche e não o deixa cozinhar depois das 21h, já pensou em oferecer-se para lhe carregar os sacos do supermercado ou a ajudou a conversar com o neto que está em Londres, através do Skype? Se lhe tentar agradar mais vezes, talvez ela até o adote como um neto e feche os olhos a algumas coisas.

18.As pessoas vão tratá-lo da forma que as deixar

Está nas suas mãos o poder de determinar como as pessoas o vão tratar. Rodeie-se de pessoas positivas, bem formadas e divertidas, e mantenha as negativas ou abusadoras à distância. Esta é a forma de ter uma vida mais agradável.

19.Repare como os colegas tratam os pais e... os empregados
Quando conhece alguém (especialmente alguém por quem se sinta atraído), observar como lida com os pais é um bom indicador do que poderá esperar dessa pessoa no futuro. Também a forma como trata os empregados - de lojas, cafés - diz muito sobre o seu carácter.

20.É possível ter boas notas e divertir-se ao mesmo tempo
O truque é fazer uma boa gestão do tempo. A universidade implica muito mais estudo do que o secundário, mas não precisa de lhe dedicar todo o tempo que passa acordado. Além disso, não é necessário estudar afincadamente todos os dias. Nas épocas de testes e exames convém reduzir as saídas, mas há sempre espaço para desanuviar. Preocupe-se em descobrir rapidamente qual o melhor método de estudo e depois encaixe a diversão no tempo livre.
 
(www.expresso.pt)
 
 
Há 20 anos atrás, fui Tia pela primeira vez... Parabéns, querido sobrinho! Que a tua vida seja sempre bem recheada de abraços e que saibas sempre onde os procurar quando precisares...
Aqui fica o meu... bem apertado!

Sabedoria de bolso... para ti.

"Agora nos teus vinte anos, Maria [André querido, por hoje], eu te dedico este livro: Alice no País das Maravilhas.
Este livro é doido, Maria. Escuta: se não descobrires um sentido na loucura, acabarás louca. A realidade, Maria, é louca! Ninguém no mundo pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: "Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?". Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível, nem quando te questionares "Quem sou eu no mundo?".. Não importa a resposta; o importante é encontrares uma. A sozinhez ( e esquece esta palavra feia que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que a Alice sentiu no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!" O importante é que conseguiu sair de lá, abrindo a porta! A porta do poço, Maria!
Somos todos tão tontos, Maria! Quando a Alice comeu o bolo e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo!
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso -nem toda a sabedoria tem de ser grave. Por isso te digo: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: "Gostarias de gatos se fosses eu?"
A vida das pessoas é feita de corridas, Maria. Mas é tontice disputar corridas se não sabemos quem venceu. Se tiveres que ir a algum lugar, Maria, não te preocupes com a vaidade fatigante de seres a primeira a chegar. Se chegares sempre onde quiseres chegar ganhaste, Maria!
E, Maria, nos momentos em que pensares em desistir, em que o teus olhos teimem olhar para o chão, não desesperes como a Alice com o seu pensamento: "Devo estar a diminuir de novo." Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente. Alice diminuiu tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, querida Maria. Ah, mas o contrário também acontece! A alma da gente é uma máquina complicada que produz, durante a vida, uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O truque, Maria, é rir no caso da primeira confusão e enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E, Maria querida, como tomar o pequeno por grande e grande por pequeno é sempre meio cómico nunca, mas nunca devemos perder o bom humor. Todas as pessoas devem ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato, sabes aquele, Maria, que gastamos na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa quando está sozinha, para perdoares a ti mesma, para te rires de ti mesma, Maria; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sentimos o sucesso ou o fracasso... Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, Maria, mais uma palavra de bolso: às vezes, Mariazinha, uma pessoa abandona-se de tal forma ao sofrimento, com tal placência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, Maria. Por isso Alice, depois de ter chorado num lago, pensava: "Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas". Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida, Maria querida; é feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira da nossa dor, Maria da Graça.
A sabedoria de bolso, Maria, vais achá-la sempre no teu coração... é aquela que sem falar, Maria, fala mais alto; aquela que te guia se estiveres atenta, bem atenta, Maria querida! E, Maria, faz-me o favor de olhar para as cores da natureza, para o céu! Tudo o que está à tua volta, Maria, te lembra -caso te esqueças- que o porquê da vida é a beleza! Por isso, querida Maria [meu querido André] faz-te [e faz-me] o favor de ser FELIZ!"
Gosto-te. Muito.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Porquê?

As pessoas não “compram” o que fazemos,
mas a razão por que o fazemos.


Simon Sinek

terça-feira, 10 de maio de 2016

Às vezes é preciso...

"Às vezes é preciso diminuir o barulho, parar de fazer perguntas, parar de imaginar respostas, aquietar um pouco a vida para simplesmente deixar o coração nos contar o que sabe.
E ele conta. Com a calma e a clareza que tem."
(Ana Jácomo)

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Aprender com os erros...

Cada fracasso ensina ao homem algo que necessita aprender.

Charles Dickens

Tenho a certeza...

                       Neste dia especial... para alguém ESPECIAL... 
                       FELIZ ANIVERSÁRIO!

quinta-feira, 5 de maio de 2016

A Felicidade


Feliz é uma coisa que se é ou não é. Não se pode “estar” feliz. Pode-se estar-se bem disposto, pode estar-se alegre, pode estar-se satisfeito, mas feliz é coisa que simplesmente não faz sentido estar. Ou se é ou não se é. Mas não se julgue que é fácil saber qual das duas coisas será a mais triste.

As pessoas que não têm alegria na vida podem ter a esperança de se alegrar. As pessoas que andam sempre descontentes continuam a ter hipóteses de virem a contentar-se. As insatisfeitas podem muito bem satisfazer-se. Mas as pessoas infelizes, porque são mesmo infelizes, porque infelizes é uma coisa verdadeira que elas realmente são, não podem “enfelizar-se”. Feliz é também uma coisa que ninguém se torna, que ninguém fica e que ninguém compra. Ou se é, ou não se é. É como ser louro. 
(...)

As pessoas felizes são aquelas que têm vergonha de falar nisso. Em Portugal, dizer “Eu sou feliz” é como dizer “Eu sou rico” ou “Eu sou de boas famílias”. É escandaloso. Pode dizer-se “Hoje estou bem disposto!”, porque é como confessar uma anormalidade. É notícia. Dizer “Hoje estou mal disposto” é muito menos assunto de primeira página – é como a notícia “Homem mordido por cão no Rossio”. Em contrapartida, a notícia “Hoje acordei bem disposto” é mais aliciante; como “Cão mordido por homem no Terreiro do Paço”.

Ninguém tem pachorra para aquelas bestas sadias que estão sempre alegres e bem dispostas – é uma atitude de desrespeito perante a vida e a desgraça dos outros. Em Portugal, o que convém é andar mais ou menos. À pergunta altamente irritante “Então? Bem disposto?”, não é lícito nem responder que não (“Deixe-me soterrá-lo nalgumas misérias minhas”), nem responder que sim (“Deixe-me enaltecer junto de si alguns dos meus triunfos pessoais mais recentes”). A resposta de protocolo é “Oh...”, encolher os ombros, sorrir como quem diz “O que é que se há-de fazer?” e perguntar “Então e tu?”, com ar de quem já sabe a resposta.

Para ser feliz é preciso ser-se um bocado parvo. Eu, por exemplo, sou. A felicidade é inversamente proporcional a uma série de coisas de boa fama, como a sabedoria, a verdade e o amor. Quando se sabe muito, não se pode ser muito feliz. A verdade é quase sempre triste. É científica, uma chatice de células e de ácidos nucleicos, de fatos não só nus como crus. Os fatos! Apetece gritar-lhes: “Psshtt! Mas que pouca vergonha é esta? Vão já vestir-se e cozer-se!”.

É por isso que existe a mentira – é um dos mecanismos da felicidade. As pessoas felizes são aquelas que mentem a si mesmas sem dar por isso e que conseguem enrolar-se bem enroladinhas. Aliás, se formos a pensar no que distingue uma pessoa feliz de uma pessoa normal, verificamos que é o facto de a pessoa feliz nunca pensar em si própria. As pessoas normais martirizam-se com a profundidade das suas análises, adoram enterrar os cotovelos nos pântanos lamacentos das suas motivações. Enfim, pensam muito nos problemas que têm. As pessoas felizes só pensam nos outros. É como se não existissem. É por isso – por não existirem esse bocadinho – que conseguem ser felizes. É uma ilusão óptica muito bem feita. Ninguém é mais feliz que o homem invisível.

(...)

(Miguel Esteves Cardoso)

terça-feira, 3 de maio de 2016

Sapatos novos

"Uma porta fechada. Os pés despidos. Nús.
E tu nos teus melhores sapatos: novos. Perfeitos.
Ainda consegues sentir o cheiro a novo... ainda consegues sentir o cheiro da pele... Senti-lo-ias, ainda que medisses dois metros -entre os pés e o nariz.
Mas como estão os teus pés?
Esses que guardas dentro dos teus sapatos -novos?
Ali, presos, vão-te prender, vão-te contrair e contrariar os movimentos..
Não vais poder dançar -que magoam; não vais poder andar por ruas incertas -que cais.
Vão dizer-te -os sapatos novos- por onde deves ir, por onde podes ir; não te vão deixar calcar terra, que enterra os saltos -altos- e, se forem rasos, não deixam também, porque são novos e a terra suja, estraga o brilho.
E vais andar ali, com os pés a quererem rasgar os sapatos, para saírem... os dedos a atropelarem-se uns aos outros, encavalitados, a mingarem no aperto. Que aperto.
Livra-te deles, antes que sejas todo aperto, até à garganta que ganha nós e te rouba a voz.
Livra-te deles. Novos, perfeitos. Deixa-os a outros pés, perfeitos para eles.
Deixa o pó da terra ganhar-te os pés descalços, deixa cair sobre eles a água da chuva, deixa-os secar ao sol.
Deixa os sapatos à porta: não entres -nem eles, nem na porta-  se não couberes em nenhum deles.
Livra-te deles, antes que te apertem os pés, o peito, o ser.
E essa porta será uma porta fechada: por ti.
E esses pés; os que tu despiste.
Que sejam os teus pés: nús e gastos... de andarem, de dançarem, de viverem.
Pés cheios de histórias a subir-te pelos calcanhares até à garganta, que te desfaz dos nós e te devolve a voz."

domingo, 1 de maio de 2016

Dedicado a todas as Mães

Desde sempre, em teu fundo, fui semente. 
Lá morava o meu projeto pequenino
quando nem tu me sabias inquilina! 


Até que, centelhas me acordaram 
e te cresci comigo, enquanto parecíamos 
a mesma bolsa de guardar a vida. 


Quando me fiz terra, te tornaste lua 
e girando à minha volta, me fez gente, 
no cuidar, na zanga e na ternura. 


Hoje dentro deste ser imenso, 
sou alguém que é abrigo e ventre 
e guarda teu amor, como semente 
a espalhar centelhas pelo mundo.  


Angela de Padua Schnoor