terça-feira, 1 de setembro de 2015

O tamanho: do mundo, dos sonhos

"Sempre que olho o mundo, e o vejo (realmente), percebo o grande que é. E nós: parte (pequena). Cabemos inteiros numa rua estreita: são quilómetros de rua para uns centímetros de pés. Mas de nada serviria à rua – ser rua – se não fossem os pés que por lá passam e fazem dela aquilo para que se fez.
Sempre que olho para mim, e me vejo, percebo o quanto sou pequena – quando lembro o tamanho do mundo – e sei que caibo (toda) numa rua estreita.
Sempre que olho para nós e para o mundo, e nos vejo (realmente), percebo o quanto somos grandes: com sonhos que não cabem numa casa, nem no castelo lá no alto. Sonhos que não se calam entre paredes e se repetem em eco (dentro e fora: de mim, de nós) para nos lembrarmos deles – que nos lembram sempre de nós. Sonhos que não nos cabem no corpo: que é apenas corpo, e os sonhos são feitos de outra matéria, que se escapa pelos poros e se infiltra por todas as partes – como o suor a escorrer num dia quente; como a respiração ofegante que não sabemos acalmar; como a pele enrugada depois de um banho quente e longo; como as lágrimas que caem sem fim depois da notícia mais triste e como as gargalhadas fartas, depois da mais feliz. Gargalhadas como as tuas: que atravessam paredes e tempo; que correm campos inteiros e se espalham pelas searas de trigo (que os contam umas às outras), mais longe do que os nossos olhos podem saber e os nossos ouvidos podem acompanhar.
E é pelos sonhos que vale a pena correr, como corre uma criança, na pressa da vida, com os pés em atropelo, sem certeza de onde os vai pousar – mas na certeza de que o pé já não toca o chão e esse terá de se refazer, abaixo de si – no tempo de uma passada apressada. Enquanto tu corres e me sabes correr atrás de ti – ao ritmo das tuas gargalhadas – o meu chão também se refaz: mais forte. E quando te toco somos maiores que o mundo e (inteiras) já não cabemos na rua estreita, pequena para nos guardar."

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