quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Conto contigo!

Um dia, num futuro melhor, as crianças vão governar o mundo.
Quando afirmo que, um dia, as crianças vão governar o mundo quero dizer-vos que elas, ao crescerem, nunca ficarão pelos nossos exemplos (quaisquer que eles sejam). Irão para além deles. E mais longe do que nós.
Hoje, as crianças são melhores filhos do que nós fomos, e não sofrem com a confusão entre o respeito e o medo que fez com que tantas pessoas temessem os seus pais mais do que, descontraída e seguramente, gostavam deles.
As crianças são, hoje, alunos mais exigentes, mais informados e mais cooperantes. Levam para a relação com a escola a mesma democracia familiar (mesmo quando há professores que ainda esbracejam e confundem uma relação democrática com o conhecimento e a admiração - por quem compartilha a sua sabedoria - com a anarquia e com a indisciplina).
As crianças acreditam no futuro e nas pessoas como nós acreditámos... Talvez elas o façam com menos timidez (e se deixem guiar pela intuição de que melhores pais as tornarão mais pessoas, e que tanta luminosidade dentro delas lhes trará outras pessoas mais luminosas ainda).
As crianças de hoje hão-de ser melhores pais... porque os pais delas - nós! - somos, inequivocamente, melhores do que os nossos foram, embora eles nos tenham dado tudo o que não tiveram, porque foram - eles também - melhores pais do que os nossos avós. É este o maior desafio da educação: crescermos para além dos nossos pais (pela sua mão), que é exatamente o que eles mais desejam que sejamos capazes. Talvez, assim, percebamos que temos mais qualidades do que, por vezes, nos fazem crer. Assim as utilizemos fazendo as asneiras com que nós, como os nossos filhos, aprendemos. Assim possamos dizer «conto contigo» às pessoas com quem ousamos crescer. E - é claro - assim assumamos que o pessimismo é a batotice de todos aqueles que, por não lutarem pelas suas convicções - ou pela sua transformação, ou pelas pessoas bonitas para quem se modificam por fora -, se ficam pela ideia de que são «belas adormecidas» (a quem incomoda a humildade ou a generosidade de quem conta com os outros para crescer). Só os pessimistas se ficam por uma atitude desconfiada diante da bondade, frente à beleza e em face do sonho. Como se todas as pessoas tivessem de se subjugar diante da voracidade totalitária do seu pessimismo.
O futuro aceita pessoas imperfeitas. Sejam pais desajeitados ou professores «à beira de um ataque de nervos». Assim uns e outros cresçam com as imperfeições com que todas as crianças dialogam, um dia atrás do outro. Só quem não aceita as imperfeições humanas (começando pelas suas) é que não cresce. Só quem não reconhece a sua necessidade de crescer não aceita o futuro.
(Eduardo Sá, in Chega-te a mim e deixa-te estar)
 
Porque hoje é o teu dia, André, dedico-te este momento de reflexão...

1 comentário:

  1. Excelente pensamento... Muitos parabéns, querido André! Xi-coração apertadinho para ti!

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