"Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita para poupança de tempo. Com enfado, o clínico dirigiu-se ao menino:
- Dói-te alguma coisa?
- Dói-me a vida, doutor.
O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já D. Serafina aproveitava o momento: "Está a ver, doutor? Está a ver?"
O médico voltou a enfrentar o miúdo:
- E o que fazes quando te assaltam essas dores?
- O que melhor sei fazer, doutor.
- E o que é?
-É sonhar."
(Mia Couto, in O Fio das Missangas)
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